15 de dezembro de 2019 08:29

“Política ambiental contemporânea não pode ter ideologia. Ela não é de esquerda, nem de direita”

Autor: Redação

Reprodução

O agrônomo Xico Graziano é uma das vozes corajosas ao enfrentar o “politicamente correto” que tomou conta das discussões ambientais no Brasil, que acaba por atacar o agronegócio e dividir o mundo entre vilões e mocinhos numa verdadeira histeria. Em entrevista, Graziano avalia a questão do desenvolvimento sustentável no Brasil, fala da amazônia e quais seriam os passos que deveríamos tomar para construir uma política ambiental realmente séria. Nesse bate-papo, Graziano – que também tem vasta experiência com a política – derruba alguns mitos. Confira na íntegra.

Qual a análise que é possível ser feita sobre a questão da busca pelo chamado desenvolvimento sustentável no Brasil? Quais as principais críticas à nossa legislação ambiental? Somos realmente um país que desmata muito?

É inegável que o Brasil desmata florestas virgens e as coloca em produção. Mas, primeiro, precisamos separar o desmatamento ilegal, criminoso, que deve ser abominado, sobre a Amazônia especialmente, daquela supressão florestal autorizada, legal, segundo o Código Florestal. Nesse caso, o que vem ocorrendo é que os melhores solos, planos, férteis, mais próximos, estão sendo incorporados à fronteira agrícola. Não tem nada de errado nesse avanço. Quem puxa o desmatamento, no mundo, é a demanda por alimento, pois se não existissem mercados promissores ninguém sairia por aí derrubando floresta. Por que os EUA, ou os países da Europa, ou a Austrália, ou mesmo a China, não fazem desmatamentos? Simplesmente porque eles já derrubaram 100% de suas florestas nativas que cobriam, há mais de meio século, todas as terras aráveis de seus territórios. Sobraram os lugares inóspitos. Quem não entender esse processo não compreende a história da nossa civilização.

Quais seriam os primeiros passos para o desenvolvimento de uma política ambiental realmente séria, sem viés ideológico e pensando em gerar renda, riqueza?

Política ambiental, contemporânea, não pode ter ideologia. Não deve ser nem de esquerda nem de direita, precisa olhar para a frente. Olhando para o futuro, o que devemos fazer para garantir um mundo sustentável? Primeiro, enfrentar a crise ecológica das cidades, essas montanhas de lixo, os esgotos a céu aberto, a poluição atmosférica, o barulho das motocicletas, a contaminação dos mares, por aí vai. O Brasil tem uma política ambiental urbana vergonhosa, estamos 30 anos atrasados em relação aos países desenvolvidos. Nosso ambientalismo sempre teve um viés muito verde, quer dizer, ligado na defesa da floresta, na biodiversidade, pouca atenção dando à agenda cinza, aquela da poluição. Segundo, se focarmos a proteção de recursos naturais, estamos ainda trabalhando na fase primária do “preservacionismo”, do território intocável, enquanto o mundo todo opera sob a ótica do “conservacionismo”, ou seja, de realizar a preservação explorando as belezas naturais de forma sustentável. Aqui entra o turismo ecológico, uma prática conservacionista que avança fortemente no mundo e, entre nós, sofre restrições dos ambientalistas que mais pensam em defender o “meu” ambiente, e não o meio ambiente para a população. O turismo ecológico gera recursos para garantir a conservação ambiental. Em terceiro lugar, precisamos dar mais atenção aos fenômenos climáticos extremos, e desenvolver medidas de proteção, nas áreas urbanas, às populações. Ficar discutindo as causas do aquecimento global não leva a nada, mas mitigar efeitos das mudanças de clima é necessário.

Em um artigo publicado, o senhor defende que o meio ambiente não pode excluir o ser humano. A assertiva que, em tese, deveria ser óbvia ainda acaba causando algumas polêmicas. Então, indago: o que realmente o senhor quer pontuar ao fazer tal afirmação?

Não se explica o drama ambiental da civilização sem considerar a variável populacional. Nós, humanos, somos uma espécie em crescimento demográfico constante, que já foi exponencial; agora caiu a taxa, mas chegaremos até a 10 bilhões de pessoas em 2050. Quer dizer, a pegada ecológica sobre o planeta não para de aumentar. Compatibilizar o crescimento da população com a proteção ambiental é o desafio contemporâneo. Como proceder? Ou depredamos, e ameaçamos o futuro, irresponsavelmente, ou desenvolvemos tecnologia para mitigar os efeitos causados pela pressão sobre recursos naturais. Educação ambiental também funciona, fazendo as pessoas serem mais responsáveis, conscientes, sobre o drama civilizatório que enfrentamos. Como “agroambientalista” que sou, reflito com meus alunos que, nessa disputa entre a produção e a proteção, haverá somente um vencedor: será a simbiose, a união das duas forças, ou seja, produzir e preservar ao mesmo tempo. Isso somente será possível fazer através da inteligência humana, do avanço do conhecimento científico e tecnológico. Eu sou um crente da ciência: a saída será, sempre, mais tecnologia, jamais haverá uma volta ao passado, conforme alguns bucólicos imaginam.

A Amazônia corre de fato os riscos que são alardeados pela imprensa, com base em especialistas que são ouvidos pela grande mídia? Aliás, quais são os desafios do governo hoje ao lidar com as questões que envolvem a Amazônia?

Deixe-me ser pedagógico: pouca gente sabe, mas existem duas “amazônias”: uma é a Amazônia Legal, um perímetro definido politicamente envolvendo nove estados brasileiros, no todo ou em parte; outra é a Amazônia Bioma, definida pela presença daquela floresta densa, alta, característica, que cobre 80% daquela área legal. Onde fica a diferença principal? Nas áreas do bioma de cerrado existente dentro da Amazônia Legal. Isso mesmo, na Amazônia Legal nem tudo é floresta amazônica. Então, quando se divulgam dados sobre desmatamento, a absoluta maioria deles se refere à supressão da vegetação de cerrados, e não propriamente da floresta amazônica. Rondonópolis, por exemplo, um município líder de uma região ocupada pelo agronegócio do algodão, soja e milho, fica dentro da Amazônia, mas sua cobertura vegetal é de cerrado. As estatísticas nunca deixam claro essa distinção. E mesmo quando o fazem, os jornalistas não entendem, e tudo recai sobre a Amazônia, sem distinção. Mesmo assim, se nós somarmos todo o desmatamento realizado, nos últimos 30 anos, no perímetro da Amazônia Legal, ele atinge por volta de 10% da área total; considerando apenas o bioma Amazônia, deve dar uns 5%. Ou seja, 95% da Amazônia Bioma ainda está intocável. Como se percebe, nem tudo está perdido, como gostam de vociferar os ecoterroristas urbanóides, como chamo aqueles que adoram denegrir o agro nacional.

Na sua visão, como o governo deveria trabalhar a questão indígena?

Simples, é só titular, imediatamente, cumprindo a Constituição, todas as áreas indígenas por eles comprovadamente ocupadas; por outro lado, acabar com essa farsa esquerdista manipulada pelos MST do campo, que provoca invasões de fazendas produtivas e fábrica índios onde eles haviam desaparecido há décadas.

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