9 de fevereiro de 2020 15:30

“A gente tem um congresso que, na maioria, é corrupto”, diz
deputada federal Carla Zambelli

Autor: Luis Vilar

Sérgio Lima/PODER 360

Em Alagoas para o lançamento do Aliança Pelo Brasil, partido que está sendo criado pelo presidente Jair Bolsonaro, a deputada federal Carla Zambelli (PSL) concedeu uma entrevista exclusiva ao Jornal das Alagoas para falar um pouco sobre as perspectivas da nova legenda, bem como o governo do presidente Jair Bolsonaro e o que passa a ocorrer, a partir de agora, com os políticos que permanecerem no PSL.

Zambelli diz que a permanência na antiga legenda de Bolsonaro para a ser um impeditivo para receber o apoio o presidente da República no processo eleitoral de 2020. A parlamentar se mostra otimista com a possibilidade do Aliança Pelo Brasil já se fazer presente no pleito desse ano, mas diz que não depende apenas da organização da agremiação, mas também da Justiça Eleitoral.

Diante da possibilidade do Aliança não ser consolidado, Zambelli destaca que há planos para outras candidaturas em outras legendas com o apoio do presidente, mas desde que o histórico dos postulantes sejam de aliança ao projeto de Bolsonaro.

Confira a entrevista na íntegra:

O Aliança Pelo Brasil tem feito uma caminhada por várias cidades do país, com participação do presidente Jair Bolsonaro por lives, como foi aqui em Maceió. Qual o cenário que de fato vocês trabalham? Acreditam que terão o partido já para essas eleições municipais ou o Aliança Pelo Brasil é projetado apenas para 2022, na busca de Bolsonaro pela reeleição? Como fica a questão da preparação da base do presidente nesse ano, caso o partido não saia?

A gente sabe que existem várias variáveis que não dependem apenas de nós. Algumas dependem de nós, outras da população. O que depende de nós é a capacidade organizacional para definir as pessoas que vão aos cartórios para pegar os apoiamentos e dividir por região. É muito trabalhoso, mas estamos fazendo e está bem avançado. O que diz respeito ao que nós do Aliança precisamos fazer, está o ok. Aí vem a variável da população que nós não controlamos, mas que temos visto que está muito positivo. As pessoas tem comparecido, estão indo aos eventos mesmo tendo feito os apoiamentos. São pessoas de todas as idades e locais do país, até mesmo onde acham que o Bolsonaro não tem apoiamento, como alguns locais do Nordeste. A gente acredita que vai passar das 500 mil fichas de apoiamentos e tem que passar, porque nem todas passam a ser consideradas válidas, porque às vezes há preenchimento errado. Aí, depois, vem uma parte que é outra variável que não depende de nós, que é os Tribunais Regionais avaliarem as fichas. São variáveis que não conseguimos controlar. Está o tempo apertado, pois não é fácil. Há a possibilidade de não sair o Aliança para a eleição desse ano. Já estamos trabalhando com a possibilidade de pessoas importantes para a gente, a gente se apoiar numa rede de apoiamento, para apoiarmos os candidatos a vereadores e prefeitos para formamos uma rede bolsonareana independente de partido. Estamos trabalhando com todas as variáveis, tentando nos organizar para tudo. Sabemos que é uma direita nova. Sabemos que para cumprir o nosso compromisso de campanha – que é menos Brasília e mais Brasil, do Bolsonaro e do ministro Paulo Guedes – precisamos ter uma base. Não adianta pulverizar o poder se na ponta ele é corrupto. Então, é importante essas eleições municipais. Mais importante d que a montagem do partido, essas caravanas pelo país tem sido de conscientização. Independente de ser do Aliança ou não, o que eu tenho dito às pessoas é que votemos em pessoas corretas. Vamos renovar a política. Isso é importante independente do partido ficar pronto ou não.

Houve um cenário, em 2018, com a eleição do Bolsonaro que mostrou uma direita forte e unida que batia de frente com a esquerda e teve importantes vitórias eleitorais. De repente, essa direita se esfacelou. Algumas pessoas de direita passaram a criticar o governo. Bolsonaro foi chamado de traidor e algumas pessoas que criticavam o presidente foram expostas como traidoras também. Enfim, uma confusão. Isso, na avaliação da senhora, enfraquece, se torna uma depuração da direita, como dizem. Como a senhora vê esse cenário?

Enfraquece um pouco, independente de ser uma depuração. Era pessoas que estavam do nosso lado. Nós tínhamos números, não é? Então, numericamente isso enfraquece a gente, mas também nos fortalece, pois é uma depuração que o povo quer ver. Muita gente surfou na “onda Bolsonaro”, mas em muito pouco tempo se mostrou. Eu, muitas vezes, sabia da índole de alguma pessoa. Sabia que isso ia acontecer em algum momento, mas achava que isso ia ser lá para 2022, numa reeleição do Bolsonaro, com alguém tentando derrubar o presidente pra ser candidato. Eu nunca imaginei que no primeiro ano a gente já conseguisse depurar isso daí. A gente tem outra coisa que é o seguinte: a gente está acostumado com a união da esquerda não pelo bem do Brasil, mas pela quantidade de dinheiro que eles vão roubar. Eles se protegem a qualquer custo. Isso ao ponto do (ator) Zé de Abreu falar o que falou da Regina Duarte, que eu nem me atrevo a repetir, e o Brasil 247, que é um site de esquerda, defender o Zé de Abreu, como algo que a esquerda tem que fazer para enfrentar o que eles chamam de direita fascista. Na direita, a gente tem essa de criticar as pessoas em função dos valores que defendemos. Eu não critico muito. Eu não critico governo. Não critico ministro. Eu critico pontualmente algumas pessoas, como critiquei, quando vi que estavam errando feio e isso se comprovou depois de algum tempo. Dizem que eu sou “passadora de pano oficial”, mas acho que nenhum governo vá ser perfeito. Não acho que Bolsonaro seja perfeito. Eu acho que ele está fazendo o melhor que pode, com os recursos que pode e com o poder que ele tem nas mãos. A gente tem um Congresso que, na maioria,ou é de corruptos, ou é de esquerda. E em sua maioria quer lutar contra as propostas que derrubam a corrupção. Temos alguns poderes ainda corrompidos e isso acaba atrapalhando o andamento do presidente. E isso independe dele. As pessoas tem que entender isso. Meu trabalho, como deputada federal, além das comissões e do que faço ali dentro, é mostrar que o presidente tem feito tudo que é possível dentro do que lhe é cabível.

Dentro dessa realidade que a senhora descreve do Congresso, uma figura política que vira e volta é alvo dos eleitores mais bolsonaristas é o presidente da Casa, o deputado Rodrigo Maia (Democratas). Ele, na visão da senhora, atrapalha mais ou ajuda mais o governo?

Nas propostas econômicas, ele mais ajuda. Nas demais, depende de cada pauta. É no varejo. A gente não consegue criticar o Rodrigo Maia no atacado. Eventualmente, ele abraça um pouco as causas de algumas figuras que querem derrubar ministros como o Abraham Weintraub (Educação), eventualmente ele pode atrapalhar o governo. Mas isso é do jogo democrático. Ele tem o direito de criticar e a liberdade de expressão está aí para ser utilizada. A gente nunca imaginou que o Rodrigo Maia fosse ser um apoiador 100% do governo. Ele nos ajudou com a Reforma da Previdência, vai nos ajudar com Tributária, Administrativa. Com a Reforma Politica, devemos ter embate. Eu estou começando a aprender, e isso a gente aprende lá dentro, que não adianta querer criticar genericamente uma pessoa. A gente tem que atacar os pontos, os fatos e não atacar pessoas. Rodrigo Maia tem sido excelente para algumas coisas e para outras não. Mas ele tem até recebido as minhas críticas e tem recebido.

Uma das críticas ao governo é insinuar um acordo entre o presidente Jair Bolsonaro e o presidente do Supremo Tribunal Federal, Dias Toffoli, e que acabaria colocando o bolsonarismo como um petismo ao contrário. A senhora enxerga assim?

Eu acho que o presidente percebeu que se não houver o mínimo de conversa e diálogo entre o STF e o Executivo fica ingovernável o país. Não é fácil para o presidente, por tudo que ele viveu, a quantidade de injustiças que ele viveu, inclusive algumas do Poder Judiciário, abrir mão da ideia individual em prol do Brasil. Qualquer pessoa que enxergue mais de perto vai perceber que se essa proximidade não existisse a governabilidade seria impossível de ser realizada. Nós tivemos um 2019 com excelentes índices em tudo. O dólar está alto por uma questão internacional e é o único índice difícil de você controlar internamente porque depende de outros fatores. Mas, o governo Bolsonaro vai muito bem em todos os índices econômicos. Em tudo que foi possível o governo melhorar, ele melhorou. Inclusive aqui no Nordeste. O envio de recursos federais para o Nordeste é três vezes maior do que para o sudeste. Isso no bruto. Se for pegar o proporcional é quase seis vezes maior. Temos um presidente que está preocupado com tudo. É o primeiro governo, desde 1990, que fez menos o toma-lá-dá-cá. Os ministros são de quadro técnico. Então, é bem falácia. A Polícia Federal está independente, por exemplo.

Como fica a composição do Congresso quanto a direita depois do racha do PSL? Era uma das maiores bancadas que se desfaz e isso pesa em relação ao apoio que o presidente precisa ter no Legislativo. Como a senhora avalia isso, pois o problema não é nem tanto nas chamadas pautas econômicas, mas nas dos costumes?

A pauta de costumes é interessante, pois mesmo aqueles que ficaram na ala chamada bivarista ou “PSL raíz”, eles perceberam que as redes sociais não os deixarão em paz. Algumas já estão vindo para o nosso lado. Um deles eu posso falar o nome: Soraya Manato. Ela já pediu para ser recebida pelo Aliança. Alguns outros já tem conversado conosco para vir para o nosso lado. Um que eu posso citar que vai seguir no PSL, é o Pablo do Amazonas, mas em todas as pautas votou com o governo. Ali existia muito um compromisso com base eleitoral e por isso precisou ficar no PSL. Cada um teve o seu motivo. Outros já tinham feito compromissos com vereadores, deputados estaduais etc. Mas a maioria vota com Bolsonaro. Um ou dois é que vão querer votar contra para dizer que são contra, mas em geral, e aí principalmente porque serão cobrados por seus eleitores, não vão querer votar contra Bolsonaro, pois vai ser a arma que terão para conseguir se eleger ao dizerem: ‘Olha, eu votei com Bolsonaro’ e assim mostrar o índice de votação com o governo federal.

Aqui em Alagoas, falando dessa questão do PSL, há uma questão interessante. O partido tem assumido o discurso de que é a única direita e que terá o apoio do presidente Jair Bolsonaro. Caso o Aliança Pelo Brasil não se consolide, o presidente vai apoiar alguém do PSL depois desse racha todo? Está no PSL é um impeditivo para receber o apoio do Bolsonaro?

Sim. Acho muito difícil o Bolsonaro validar qualquer candidatura do PSL. O problema PSL é o seguinte: não há nada contra a sigla em si, ou quem ficou. Mas quem ficou sabe que existe uma falta de transparência que não foi respondida: onde estão os recursos milionários que o PSL recebeu no último ano? Até hoje não se respondeu isso. Eu estou respondendo dois processos de cassação de mandato porque estou questionando isso. Eles foram instalados pelo PSL. Que instalem então o terceiro e o quarto, pois eu vou continuar perguntando: onde estão os recursos? A gente foi eleito falando de transparência, do uso do recurso público de forma responsável. Quem ficar no PSL sabe que não tem transparência, o partido não age com honestidade e terá que pagar o preço. Eu não posso falar pelo presidente, mas acredito que ele não vá apoiar ninguém no PSL. E aqueles que estão fazendo esse discurso de que terá o apoio do Bolsonaro ficando no PSL, cuidado com esse discurso porque ele é falacioso. Quem quiser votar direito, olhe nas redes sociais as pessoas em quem você vai votar. A gente vai tentar apoiar na medida do possível pessoas aqui em Alagoas, mas olhando o passado da pessoa. Vai passar no crivo quem for aliado do Bolsonaro e não quem está no PSL. Se estiver no PSL aí é um impeditivo.

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